Reforma tributária
Reforma tributária: os impactos positivos e negativos para os hospitais brasileiros
Alíquota reduzida, crédito sobre insumos e glosa fora da base de cálculo convivem com folha sem crédito, split payment e anos de dois sistemas ao mesmo tempo.

A reforma tributária muda a forma como os hospitais pagam tributos sobre os serviços que prestam e os insumos que compram. Há ganhos claros, como a redução de alíquotas para a saúde e a exclusão da glosa não paga da base de cálculo, e riscos que dependem da regulamentação, como o efeito do split payment no caixa e o peso da folha, que não gera crédito.
O que muda com a reforma tributária?
A reforma troca cinco tributos sobre o consumo por um imposto sobre valor agregado dividido em dois: a CBS, federal, que substitui PIS e Cofins, e o IBS, de estados e municípios, que substitui ICMS e ISS. As regras estão na Emenda Constitucional 132/2023 e na Lei Complementar 214/2025. [1]
A mudança é gradual. Em 2026, ano de teste, a CBS é cobrada a 0,9% e o IBS a 0,1%. [1] Em 2027, a CBS entra em vigor de fato e PIS e Cofins deixam de existir. De 2029 a 2032, o ICMS e o ISS caem aos poucos enquanto o IBS sobe, e o novo sistema fica completo em 2033. As alíquotas de referência ainda serão fixadas pelo Senado, a partir de cálculos da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS.
Quais são os impactos positivos para os hospitais?
O principal ganho é a redução de 60% nas alíquotas do IBS e da CBS para os serviços de saúde listados no Anexo III da lei, para os dispositivos médicos do Anexo IV e para os medicamentos registrados na Anvisa. [1] Uma parte dos medicamentos e dispositivos tem alíquota zero. [1]
Há outros pontos a favor:
- Glosa não paga fora da base. Os valores glosados pela auditoria dos planos de saúde e não pagos não integram a base de cálculo do IBS e da CBS dos serviços de saúde. O hospital não paga tributo sobre o que não recebeu. [1]
- Crédito sobre insumos. O novo sistema é não cumulativo: o tributo pago na compra de materiais, medicamentos, equipamentos e serviços contratados vira crédito para abater o que o hospital deve.
- Menos complexidade no longo prazo. Uma única legislação para o IBS e a CBS no lugar de regras diferentes de ICMS e ISS em cada estado e município.
- Fim da cumulatividade escondida. Hoje parte do tributo pago ao longo da cadeia fica embutida no preço de insumos; com crédito amplo, esse custo tende a cair.
Quais são os impactos negativos e os riscos?
O maior risco está no fato de o hospital ser intensivo em pessoas. A folha de pagamento não gera crédito de IBS e CBS, e ela é a maior despesa de um hospital. Para hospitais que hoje pagam PIS e Cofins pelo regime cumulativo e ISS com alíquota baixa, a carga final pode subir mesmo com a redução de 60%. O resultado depende da alíquota de referência que ainda será fixada e do perfil de cada instituição.
Outros pontos de atenção:
- Split payment e caixa. No split payment, o IBS e a CBS são separados e recolhidos no momento do pagamento. [1] O hospital passa a receber o valor líquido, num setor em que o prazo médio de recebimento já chegou a 77,35 dias nos hospitais da Anahp em 2025. [2] A conciliação também fica mais difícil, porque o valor pago deixa de bater com o valor cobrado.
- Dois sistemas ao mesmo tempo. De 2026 a 2032, os hospitais convivem com os tributos antigos e os novos, com obrigações em dobro, sistemas a adaptar e risco de erro.
- Glosa exige controle. A exclusão da glosa vale para os valores glosados pela auditoria dos planos e não pagos. [1] Para usar o benefício, o hospital precisa registrar e comprovar cada glosa, o que depende de conciliação bem feita.
- Filantrópicos e enquadramento. A lei prevê imunidade para instituições de assistência social sem fins lucrativos [1], mas o enquadramento depende de requisitos e pode gerar dúvidas e disputas.
- Preço dos planos. As operadoras têm regime específico, com base de cálculo formada pelas contraprestações recebidas menos os eventos pagos e alíquota reduzida em 60%. [1] Como o comprador do plano em regra não toma crédito [1], qualquer aumento de custo tende a chegar à mensalidade, num momento em que a capacidade de pagamento de empresas e famílias já está no limite.
O que isso significa para o acesso à saúde suplementar?
O efeito final da reforma sobre os hospitais vai aparecer em dois lugares: na margem, que já está pressionada, e no preço dos planos. Em 2025, a margem EBITDA dos hospitais da Anahp caiu para 11,05%. [2] Se a nova carga ou a perda de caixa com o split payment pesarem mais do que o previsto, hospitais menores podem ter dificuldade de investir ou de se manter, e o custo extra pode ser repassado aos planos. Em qualquer dos casos, quem perde é o beneficiário, com menos rede ou plano mais caro.
Por isso a regulamentação dos próximos anos importa tanto quanto a lei. Detalhes como o tratamento da glosa, a forma do split payment em contratos com operadoras e o ajuste de valores pagos depois de recurso vão definir se a reforma ajuda ou atrapalha o ciclo da receita.
Como o grupo de trabalho da ABCICLO pode ajudar?
O grupo de trabalho de Reforma Tributária da ABCICLO reúne quem vive o problema na prática: profissionais de faturamento, contas médicas, fiscal e controladoria de hospitais e de operadoras. São eles que sabem onde o tributo novo vai encontrar a conta, a glosa e o pagamento.
A participação desses profissionais ajuda em quatro frentes:
- Medir o impacto real. Com dados dos associados, o grupo pode estimar o efeito da reforma por porte e perfil de hospital, em vez de depender de suposições.
- Criar um padrão comum. Um guia de conciliação com split payment e de registro da glosa não paga, aceito por prestadores e operadoras, evita que cada um interprete a regra de um jeito.
- Levar a posição do setor ao governo. Contribuições técnicas em consultas públicas da Receita Federal, do Comitê Gestor do IBS e do Congresso, assinadas pelos dois lados, têm mais peso do que a de uma instituição sozinha.
- Defender o acesso. Mostrar com números quando uma regra ameaça hospitais menores ou o preço dos planos é a forma de proteger uma saúde suplementar eficiente e acessível para a população.
A filiação de profissionais à ABCICLO é gratuita, e o grupo de trabalho é temporário, até o fim da transição.
Em resumo
- A reforma substitui PIS, Cofins, ICMS e ISS pelo IBS e pela CBS, com transição de 2026 a 2032 e o novo sistema completo em 2033.
- Serviços de saúde, dispositivos médicos e medicamentos têm alíquotas reduzidas em 60%, e parte dos medicamentos e dispositivos tem alíquota zero.
- Os valores glosados pela auditoria dos planos e não pagos não entram na base de cálculo do IBS e da CBS dos serviços de saúde.
- A folha de pagamento não gera crédito, o split payment retém o tributo no pagamento e, até 2032, os hospitais convivem com dois sistemas.
- O grupo de trabalho de Reforma Tributária da ABCICLO reúne quem fatura e concilia contas para medir o impacto real e levar a posição do setor ao governo.
Fontes
- Presidência da República. Lei Complementar nº 214, de 16 de janeiro de 2025. jan. 2025.
- Anahp. Balanço Observatório Anahp, 9ª edição (dados de 2025). mar. 2026.
